Tia Roberta Odontopediatra » CUIDANDO DOS DENTINHOS
1
fevereiro
2016
A AIDS pediátrica e as suas manifestações bucais

Oi pessoal!

Início de semana significa…vamos com tudo! Hoje abordarei um tema que não vemos muito nos livros, mas me chamou a atenção na última leitura que fiz. Vamos hoje falar sobre AIDS PEDIÁTRICA.

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A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) é uma condição sistêmica de deficiência imunológica provocada pelo vírus do HIV (Vírus da Imunodeficiênca Humana), podendo gerar diversas manifestações no indivíduo, inclusive algumas significativas na cavidade bucal. O vírus faz parte do grupo Retroviridae e Lentiviridae, necessitando da presença de uma enzima chamada trancriptase reversa para multiplicar-se. Essa enzima é responsável pela transcrição do RNA viral, integrando-se ao genoma do hospedeiro e podendo ser encontrado em diversas secreções, como soro, sangue, sêmen, lágrima, urina, secreções do ouvido e vaginal, leite materno, etc.

Ao entrar em contato com o corpo humano, o HIV afeta os glóbulos brancos, o que reduz a resposta imune e favorece infecções por meio de bactérias, fungos e vírus. Existe uma leve diferença dos sintomas dos adultos e crianças, já que as mesmas possuem um sistema imunológico imaturo, o que provoca uma maior possibilidade de contração de infecções; sendo assim, as manifestações bucais podem ser evidenciadores da doença, pois as mesmas são facilmente diagnosticadas.

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O termo “AIDS pediátrica” é usado quando a infecção pelo HIV ocorre em indivíduos de 0 a 13 anos; cerca de 90% das crianças adquirem o vírus pelas suas mães (transmissão vertical), podendo ocorrer durante a gestação, parto ou amamentação pelo leite materno. Outros casos de crianças contaminadas pelo HIV são as hemofílicas, receptoras de transfusão sanguínea, crianças que sofreram abuso sexual ou usaram drogas injetáveis.

Nos EUA, mais precisamente no Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), foram incluídas algumas manifestações estomatológicas nos critérios para classificação da AIDS pediátrica combinando com outros marcadores da progressão da doença, auxiliando no seu diagnóstico. Os primeiros relatos sobre AIDS em crianças já mencionavam a presença de lesões como candidose sugerirem quadros de imunodeficiência. É muito importante que seja avaliada a condição sistêmica da criança; as principais manifestações que sugerem o diagnóstico de AIDS são: hipertemia intermitente, inapetência, emagrecimento, linfoadenopatia generalizada, medo, ansiedade, euforia, nervosismo, depressão, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, cegueira, diarreia recorrente ou crônica, hepatoesplenomegalia, otite média, encefalopatia, miocardiopatia, síndrome nefrótica, púrpura trombocitopênica, cefaleia, etc.

Existem lesões bucais que são comumente associadas à infecção pediátrica pelo HIV, como já foi dito anteriormente. Elas classificam-se de acordo com o seu agente etiológico: as lesões fúngicas (candidose orofaríngea), lesões virais (herpes recorrente e leucoplasia pilosa); doenças periodontais (eritema linear gengival), doença das glândulas salivares (hipertrofia da glândula parótida), e outras lesões multifatoriais (úlceras aftosas recorrentes, cárie, petéquias, sarcoma de Kaposi, linfoma não Hodgkin, hipoplasia de esmalte, condiloma acuminado e impactação dental).

Candidose.

Candidose.

A xerostomia tem sido frequentemente associada e relatada por indivíduos portadores do HIV, podendo ocorrer em decorrência do uso de medicamentos. A diminuição do fluxo salivar contribui para o crescimento de fungos, em especial a Candida albicans e a Candida dubliniensis. Nesses casos devem ser tomadas as medidas para a manutenção da saúde bucal, como o uso de substitutos de saliva, redução na ingestão de carboidratos fermentáveis, higiene bucal intensa e uso de fluoretos.

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Caso queiram saber sobre as manifestações bucais e detalhes da AIDS pediátrica sugiro que façam a leitura do capítulo 14 do livro Odontopediatria: Prática de saúde baseada em evidências, do Imparato.

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Beijos!

Uma boa semana a todos.


27
janeiro
2016
Gengivoestomatite Herpética Aguda

Oi gente!

Hoje vou abranger um tema que é bem recorrente no consultório! Fiz umas postagens no IG sobre esse assunto e foram bem populares, portanto resolvi juntar o material e por aqui, assim quem quiser ler e reler o texto já vai encontrar ele todo editado! ;)

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A gengivoestomatite herpética aguda é a infecção herpética primária considerada sintomática, sendo o padrão mais frequente encontrado em crianças de baixa idade; o vírus pode ser subdividido com base em suas características biológicas e propriedades imunológicas, em dois grupos de sorotipos:

Ornamento de ponto de exclamação brancoTipo I: acomete as regiões bucais, peribucais e raramente a região ocular;

Ornamento de ponto de exclamação brancoTipo II, que se relaciona a infecções recorrentes genitais.

O contágio do vírus da herpes se dá por meio do contato físico de um indivíduo que nunca foi exposto, ou seja, com sorologia negativa, com uma pessoa infectada; as formas de contaminação do tipo I normalmente são a saliva, mais comumente por beijos, e também o uso comum de utensílios domésticos e instrumentos odontológicos; para o tipo II, menos comum em crianças, o contágio por contato sexual é o maior vetor de transmissão da infecção.

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Clinicamente, a gengivoestomatite herpética aparece como erupções vesiculares na região dos tecidos bucais e peribucais, podendo ter edema e hemorragia gengival. O seu tratamento consiste basicamente em medidas de suporte, como analgésicos e hidratação. No episódio inicial em crianças imunodeprimidas com mais de 2 anos, autores recomendam o uso do Aciclovir por via oral, na dose de 200mg em torno de 5 vezes por dia (intervalos de 4 horas), durante 10 dias, em caso de recorrência, 5 dias. Em crianças menores de 2 anos, deve-se prescrever a metade da dose, podendo também ser aplicada a medicação na forma tópica 5 vezes por dia, durante 5 a 10 dias. E, independente do quadro da criança, não deixe de levá-la ao Odontopediatra sempre que for encontrado qualquer sinal de lesão na região bucal e peribucal.

O livro que pesquisei pra fazer esse post foi o Odontopediatria – Prática de saúde baseada em evidências, do meu querido professor Imparato. Recomendo fortemente a leitura desse livro, é muito bom e bem escrito!

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Beijos da Tia Roberta!


25
janeiro
2016
O atendimento do paciente especial

Bom dia pessoal!

Hoje vou tratar de um assunto muito importante…na verdade é muito ESPECIAL. Vou falar sobre o atendimento do paciente portador de necessidades especiais, e as suas peculiaridades que se encontram em um universo diverso e complexo.

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O paciente especial requer um atendimento diferenciado, que preferencialmente deva ser feito por um profissional especialista neste tipo de atendimento. A especialidade é reconhecida nos Conselhos da área há bastante tempo, porém, ainda encontramos poucos profissionais que a possuem, pois ainda não é uma área tão difundida como deveria. Nós, Odontopediatras, apesar de não sermos especialistas em atendimento de pacientes especiais, possuímos uma pequena qualificação no assunto, pois temos algumas aulas no curso de especialização, e alguns dos manejos psicológicos são parecidos. O ideal é que o profissional possua um elo com um especialista na área para que sempre indique e/ou trabalhe em parceria, pois sabemos o quanto é delicado o atendimento.

O diagnóstico do paciente especial, do ponto de vista odontológico, gera algumas questões que devem ser avaliadas ao definir o tratamento do paciente. Conhecer o tipo de deficiência, limitações e as barreiras que devemos transpor para viabilizar o atendimento é fundamental no sucesso do tratamento, sempre buscando proporcionar o máximo de segurança e integralidade. Algumas vezes, procedimentos médicos devem ser realizados a fim de viabilizar o atendimento odontológico, ou vice-versa. Sendo assim, uma das regras principais é que o odontólogo esteja sempre em contato com o médico do paciente.

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Varellis & Lara propuseram uma classificação das necessidades odontológicas especiais, cujas modalidades são: Abordagem, Mobilidade, Estabilização; Anestesia geral e Sedação; Plano de Tratamento; Medicamentos; e Procedimentos Odontológicos, ou seja ao deparar-se com o atendimento de um paciente especial, o profissional deve analisar cada um desses quesitos antes de traçar o plano de tratamento, e a partir desse ponto, definir como será a sua atuação. Fiz um pequeno resumo sobre esses pontos importantes:

A Abordagem deve ser diferenciada pelo estado emocional do paciente, assim como o estado mental, neurológico, fisiológico e sistêmico; Na Mobilidade deve-se observar os casos de pacientes amputados de membros inferiores, com plegias e paresias e alteração de coordenação motora; No quesito Estabilização, entram os pacientes com distúrbio neuromotor, síndromes genéticas, mal de Parkinson ou deficiência mental; O Plano de Tratamento deve ser elaborado quando a doença de base determina o curso do tratamento, ou deve ser adequado em função desta doença; Na questão dos Medicamentos, o profissional deve avaliar se o paciente necessita de medicação prévia ao tratamento odontológico, ou se encontra-se contra-indicada, ou se necessita de ajuste de doses. É importante também verificar se a alteração bucal encontrada decorre de uso continuado de medicamentos que tratam doenças sistêmicas ou neurológicas (é o caso que vemos com frequência na literatura, que se chama gengivite dilantínica, que é provocada pelo uso de anticonvulsivantes); Ao realizar os Procedimentos, devemos averiguar se os materiais utilizados são contra-indicados, ou se o procedimento em si é contra-indicado, devido ao quadro apresentado pelo paciente; A Anestesia Geral é, por via de regra, utilizada em último caso, devido ao fato de que a maioria dos pacientes com condições sistêmicas afetadas possuem contra-indicação; A Sedação consciente torna-se, portanto, uma aliada da Odontologia nesses casos, por ser uma técnica considerada mais segura e menos traumática.

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A partir dessa classificação básica, o profissional deve fazer as suas escolhas baseado no quadro clínico que o paciente se encontrar e da sua condição especial. É extremamente importante que todos os aspectos citados acima devam ser analisados criteriosamente, a fim de que seja feita a opção mais consistente de tratamento, e que traga mais benefícios ao paciente com o mínimo de trauma possível.

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Agora, na vida real? O atendimento especial é bem delicado. Requer uma atenção redobrada e um coração gigante. Muitas vezes você tem vontade de chorar, por se compadecer com a situação em que aquela família se encontra, e aquele paciente tão importante. Algumas vezes dá vontade de se descabelar, porque você não sabe como proceder. É aí que entra o atendimento especializado e a sua importância. Atualmente, atendo pouco pacientes especiais, pois respeito muito o fato de que cada um deve ficar no seu “quadrado”. Quando atendia no serviço público, lá no Maranhão, eu tinha alguns pacientes, pois tínhamos na época uma carência de profissionais na rede que faziam esse atendimento, portanto, o jeito era se virar. Confesso que tenho muito desejo de fazer uma especialização na área, não só para aumentar o meu leque de atendimentos no consultório, mas porque acho que é super importante para o Odontopediatra ter esse conhecimento todo, já que as duas áreas andam bem juntas. Está nos meus planos, não breves, porque agora não dá $$$, mas se Deus quiser um dia eu faço! Adoraria me capacitar mais e mais para ser sempre uma boa profissional para os meus pacientes ;)

O livro que eu pesquisei para elaborar esse post foi O paciente com necessidades especiais na Odontologia – Manual Prático, da autora Maria Lúcia Zarvos Varellis.

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Espero que tenha sido esclarecedor e traga bons frutos para o atendimento de vocês!

Beijão!