Tia Roberta Odontopediatra
4
abril
2016
Extração de dentes decíduos – fazer ou não fazer?

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Hoje o assunto é exodontia. Para quem não é da área, é a mesma coisa que extração. A extração dos dentinhos de leite sempre foi um procedimento meio “banalizado” na sociedade, pelo simples argumento: “ah doutora, mas vai trocar mesmo…esse dentinho vai cair, então não adianta tentar salvar”. E acaba que, tanto na rede pública como na privada, existem diversos profissionais que acabam aderindo a essa história de extrair um dentinho cariado, sem ao menos tentar mantê-lo na arcada dentária por mais tempo. Nós, Odontopediatras, que somos especialistas nesses dentinhos que são tão preciosos e importantes para o desenvolvimento e harmonia do sistema estomatognático da criança, sabemos o quanto a sua manutenção é importante, e o tanto que a ausência do mesmo antes da hora pode ser prejudicial. Vou explicar, de forma mais resumida, o porquê:

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Cada dente tem o seu momento de desenvolvimento, erupção e esfoliação; sabemos que uma das mais importantes funções dos dentes decíduos, ou de leite, como são popularmente conhecidos, é servir como guia para a erupção dos dentes permanentes, que são aqueles que acompanharão o seu filho a vida inteira. Quando um dente de leite é removido antes da hora em que ele deveria sofrer a esfoliação fisiológica, isso pode vir a acelerar o processo de erupção do dente permanente sucessor, mesmo quando ele não está maduro o suficiente para erupcionar – o que pode ser prejudicial ao mesmo, podendo gerar até uma perda do elemento, pois sem a formação completa do dente, ele não tem força para suportar a carga mastigatória (eu já tive um caso assim no consultório!); outro fator que pode acontecer é o fechamento do espaço onde viria o dente sucessor, pois os dentes tendem a migrar de encontro com outros dentes para fazer contato, é um processo fisiológico deles mesmo, e na presença de um espaço entre dois dentes, cujo dente permanente não virá tão cedo para preencher, a tendência é que ocorra um fechamento do mesmo, provocando dessa forma uma má oclusão quando ocorrer a erupção do permanente, gerando apinhamentos ou até impactação do permanente, caso o espaço feche demais. E esses são somente alguns exemplos do que pode vir a acontecer…

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Claro que existem alguns casos em que a extração é a única opção curativa para o dente. Existem diversas condições clínicas, não existe receita de bolo para diagnóstico! Por isso que é extremamente importante o exame clínico feito por um profissional. As principais indicações de extração de dentes decíduos são aqueles casos cujos dentes estejam extremamente destruídos por lesão de cárie ou trauma, e o tratamento conservador não seja mais viável; quando a lesão de cárie atingir a bifurcação radicular; quando existir a presença de rarefação óssea persistente (ou seja, após tentativa de tratamento endodôntico – eu também já tive um caso assim!) na região periapical ou inter-radicular; quando ocorrer a ruptura da cripta óssea do germe do sucessor permanente; quando, por trauma, a raiz do dente estiver fraturada; dentes com alveólise; dentes anquilosados e submersos; dentes que estiverem com retenção prolongada na arcada, interferindo na erupção do sucessor permanente; dentes com reabsorção interna avançada, impossibilitando o tratamento endodôntico; raízes residuais.

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Por regra, a Odontopediatria contemporânea pratica uma terapia conservadora onde, primordialmente, deve-se tentar preservar o elemento dentário acima de qualquer decisão. Existem diversas opções de tratamento além do básico “restaurar” ou “extrair”. O tratamento endodôntico mostrou-se, por meio de evidências clínicas e científicas, ser uma excelente opção com resultados bastante satisfatórios, permitindo a preservação do elemento dentário decíduo até o momento de sua esfoliação natural, ou pelo menos, por mais tempo na arcada dentária do que se fizesse a sua remoção imediata. Técnicas de pulpotomia e capeamentos têm sido amplamente considerados também, com as suas devidas indicações, claro. O importante é tentar ser o mais conservador possível, e ter a consciência de que a extração é o último procedimento a ser considerado antes de qualquer outro.

Tia Roberta

 


11
março
2016
Método BLW

Hoje vou discorrer sobre uma sigla que me deparei no meio das minhas pesquisas diárias…BLW. Já havia lido rapidamente sobre o assunto, porém só agora tive a curiosidade de ler mais a fundo. O método BLW (Baby Led Weaning, que se traduz como Desmame Conduzido Pelo Próprio Bebê), consiste em permitir que o bebê coma com as próprias mãos, sozinho, os alimentos inteiros ou pedaços grandes. É uma metodologia alternativa no ato de introdução aos sólidos.

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Não existindo colher, papinha ou alimentos amassados, o bebê senta na mesa com a família e participa do ato de alimentar-se conjuntamente. Os alimentos precisam ter um tamanho e formato que facilite que ele pegue com as mãos, podendo assim, escolher o que come, dentre os diversos que são colocados ao seu alcance. Tudo no seu tempo e quantidade escolhidos. A filosofia baseia-se no fato de que alimentar-se bem não significa quantidades grandes, mas sim, a qualidade do alimento e do ato de se alimentar – ou seja, as famosas “brigas” pra comer que às vezes as mamães se deparam com os filhos no dia-a-dia não existem no método BLW. O bebê basicamente participa ativamente do processo de escolha da sua refeição, conferindo a ele também outro ponto importante da sua educação, que é a autonomia e responsabilidade de tomar as suas próprias decisões, ou seja, comer o que quer e do jeito que quer. A coordenação motora do bebê também é bastante trabalhada, visto que ele precisa usar as mãos para se alimentar.

O BLW foi desenvolvido pela inglesa Gill Rapley e ganhou força rapidamente devido a sua metodologia de introdução dos alimentos sólidos, que deve iniciar a partir dos 6 meses (idade preconizada pelos Pediatras); ele vem crescendo nas famílias, principalmente no exterior (no Brasil ainda é uma novidade, e muitas vezes causa estranheza entre profissionais e responsáveis), tornando-se a forma prioritária de introdução dos alimentos frente às dificuldades que os pais encontram ao iniciar a alimentação sólida dos filhos, que muitas vezes apresentam resistência em comer tudo que é oferecido a ele. Mas atente-se a alguns detalhes antes de achar que encontrou a solução para os seus problemas: quem se torna adepto do método BLW precisa saber que paciência é a palavra-chave para o seu sucesso, pois como comentamos anteriormente, o ato de alimentação no método BLW depende praticamente todo da iniciativa do bebê. O ato de descobrir os alimentos, tocá-los, sentir o seus diferentes cheiros, gostos e consistência ajuda a aguçar os sentidos do seu filho, mas é um processo que pode ser demorado e, para ter sucesso, não pode ser apressado (já que precisa ser feito no tempo do bebê), portanto, nada de ter pressa. E é preciso saber também que o processo de comer com as próprias mãos vai gerar uma certa “baguncinha” na cozinha ou sala de jantar, porque o bebê, além de ficar lambuzado, vai eventualmente derrubar alguma comida no chão, o que é natural.

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Sem sombra de dúvidas, uma das grandes vantagens do método é a melhoria na alimentação dos próprios pais, que não precisam ficar dando a comida na boca dos filhos. Ambos podem comer ao mesmo tempo e curtir uma refeição prazerosa e quentinha – as mamães agradecem rsrs…estudos mostram que a qualidade do alimento que os pais ingerem também tende a melhorar, já que os filhos se espelham nos pais para comer, e todos comem junto à mesa; a família de uma maneira geral acaba por ingerir mais leguminosos, frutas e alimentos com menor quantidade de sal. Para quem já tem crianças em casa, o método consegue ser introduzido com mais facilidade, pois sabemos que crianças mais novas sempre tentam imitar as mais velhas, portanto, o bebê vai querer comer igual o seu irmãozinho.

Atente-se também a esse ponto muito importante! Não é porque o método BLW preza pela autonomia do bebê, que o ato de alimentação do mesmo deve ser feito sem a supervisão de um adulto. Esteja sempre ao lado do seu bebê quando ele estiver comendo e fique ligado na possibilidade de engasgamento, que pode vir a acontecer, pois o bebê ainda está aprendendo a se alimentar com os sólidos. Os alimentos, mesmo que sólidos, devem ser moles, sem ossos ou cartilagens (carnes devem ser liberados primeiro pelo Pediatra), e nada de temperos muito fortes, como pimentas e especiarias semelhantes. No mais, vale a pena arriscar e perceber o que o seu filho se identifica mais, quais são as preferências alimentares dele.

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E aí, vai tentar?

Tia Roberta


4
março
2016
Ionômero, o queridinho da Odontopediatria

Bom dia, sexta-feira!

Resolvi fazer algumas mudanças nos horários e datas de postagens do blog…porque antes eu estava postando de dois em dois dias, e percebi que estava “vomitando” muito conteúdo de uma vez. Nem todo mundo estava conseguindo ler todos os posts. Portanto, resolvi postar semanalmente, pois assim vocês passam sete dias com conteúdo fresquinho e aí conseguem ler tudinho. Como nas sextas eu não trabalho pela manhã (é um dia que eu tiro pra resolver outras coisas fora do consultório e cuidar das redes sociais, etc…), resolvi me dedicar ao blog nesse momento. Mas, chega de papo furado! Hoje o tema é CIV (Cimento de Ionômero de Vidro), o queridinho da Odontopediatria e da minha vida! Rsrsrs

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No tratamento restaurador da dentição decídua o CIV é amplamente utilizado, pois apresenta algumas propriedades facilitadoras de sua aplicação em crianças, principalmente as de baixa idade e os bebês. Menor sensibilidade à umidade (quando comparado com a resina), liberação de flúor, adesão química ao esmalte e dentina, biocompatibilidade e expansão térmica semelhante à da estrutura dentária são algumas das suas melhores propriedades. Por cerca de 20 anos, diversos cimentos de ionômero de vidro vêm sido desenvolvidos, como os modificados por resina, que englobam as suas propriedades já citadas, e mais uma melhora na resistência mecânica, características de manipulação superiores e controle de tempo de trabalho.

Na Odontopediatria, o CIV é considerado o material de primeira escolha em restaurações em qualquer cavidade, e também como selantes inclusive, além de ser o material de escolha para restaurações do tipo ART (Tratamento Restaurador Atraumático). Pode ser utilizado também como material de preenchimento em restaurações indiretas em dentes vitais. O CIV modificado por resina tem também a indicação de material definitivo em dentes com esfoliação prevista para até dois anos, dentes anteriores com cárie da primeira infância e também cavidades conservadoras oclusoproximais, vindo em substituição a resina composta e o amálgama.

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Fora da Odontopediatria, o CIV vem sendo utilizado com bastante frequência em cimentações de peças protéticas e ortodônticas, como material para base ou forramento de cavidades dentárias. Também como material restaurador temporário em tratamentos de capeamento indireto e adequação do meio bucal, e também como restaurações definitivas de dentes permanentes onde não existe contato oclusal na região restaurada.

Particularmente, não abro mão do meu CIV no consultório. Como já publiquei no Instagram anteriormente, sou muito fã do Ketac Molar, da marca 3M, pois é considerado um cimento de ionômero de vidro de alta viscosidade e possui evidências científicas e clínicas de que é um bom material restaurador. Algumas vezes me deparo com mães e pais que estranham o uso do CIV, pois estão acostumados com a resina e todo o seu trunfo estético. Mas eu explico que para a idade do seu filho e pelas funções de liberação de flúor (que é, sem dúvidas, a melhor propriedade que ele possui), o CIV é o meu material de escolha. A função de maior resistência à umidade também é, sem dúvidas, uma excelente propriedade, e torna a vida dos dentistas muito mais fácil, pois sabemos o quanto é difícil controlar a salivação de crianças pequenas, principalmente bebês, que se debatem muito e não abrem a boca, e muitas vezes precisamos fazer a estabilização protetora para conseguir atender. Quem é Odontopediatra ou atende crianças, com certeza imaginou a cena, pois é rotineira no consultório! Para nós, que precisamos nos preocupar com tantos aspectos durante o atendimento odontopediátrico, como agilidade do procedimento, segurança do paciente, controle de tempo do atendimento etc, ter um material de fácil uso traz muito conforto no dia-a-dia da Odontopediatria.

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O CIV possui a mesma qualidade estética da resina? Não. Mas, normalmente, eu convenço facilmente os pais a entenderem que, em uma criança com alto risco e atividade de cárie, a estética não é prioritária, e sim, a função dentária, saúde bucal, e qualidade de vida. Os CIVS de marcas bem conceituadas no mercado (como o Ketac Molar, Fuji, Riva, etc) possuem características bem satisfatórias em termos de estética, e os pais dos meus pacientes não costumam reclamar não, pois saem do consultórios educados a entender que a saúde bucal precisa ser estabelecida primordialmente. Não me levem a mal, não estou detonando a resina composta, que é amplamente utilizada na Odontopediatria por diversas indicações. Mas devemos avaliar o paciente individualmente ao tomar a decisão do material restaurador, pensando na sua idade, incidência de cárie, compromisso com a higiene bucal em casa e a possibilidade de um acompanhamento longitudinal.

Sempre falo que o atendimento odontopediátrico é mais do que executar procedimentos. Nós fazemos parte da educação familiar em termos de saúde bucal e conscientização do consumo racional de açúcar. E quando alcançamos esse objetivo em uma família nos sentimos extremamente realizados. A sensação é incrível! Portanto, antes de pensar no que pode vir a ser mais lucrativo ou que trará melhor marketing ao consultório, vamos pensar na qualidade de um atendimento baseado em EVIDÊNCIAS, e com certeza, um trabalho executado com integridade e amor terá sempre consequências positivas.

Um excelente final de semana a todos!