Tia Roberta Odontopediatra » cárie
24
julho
2015
A doença cárie

01carie

Hoje iremos falar um pouquinho sobre um problema de Saúde Pública que invade a casa de várias famílias, independentemente do nível sócio-econômico: a doença cárie (sim, é considerada uma doença!). Ela é causada por um processo que envolve a perda dos sais minerais dentários em resposta aos ataques ácidos diários decorrentes da ingestão de alimentos, especialmente o açúcar. A sua manifestação pode ocorrer a qualquer momento da vida, porém tem a sua prevalência mais comum em crianças e jovens. Ela é a principal causadora de problemas de saúde bucal na infância; os levantamentos epidemiológicos tem mostrado valores impactantes da cárie na sociedade, especialmente em crianças menores de cinco anos na zona rural. A literatura aponta diversos efeitos negativos da doença na primeira infância, afetando o bem-estar, qualidade de vida e interação social. A bactéria principal causadora da cárie é o Streptococus mutans, e este associado ao acúmulo de placa bacteriana e consumo frequente de alimentos ricos em sacarose formam um padrão de desenvolvimento da doença.

O estudo da doença cárie é chamado de Cariologia, e tem como sua base para desenvolvimento a Tríade de Keyes, que possui tem 3 vertentes consideradas fatores primordiais para a sua existência (ou seja, sem eles não têm como existir cárie!): o hospedeiro suscetível, que é basicamente a pessoa com a higiene bucal insuficiente; a microbiota cariogênica, que são as bactérias presentes na placa bacteriana (que é o acúmulo de sujeira formado a partir da falta de higienização); e a dieta contendo carboidrato, em especial a sacarose, que é o “alimento” da bactéria, e é o que vai gerar a desmineralização do dente promovendo as lesões cavitadas. Ainda existe uma quarta vertente em uma versão atualizada dessa tríade que inclui o tempo, pois todo esse processo de formação da cárie é lento e depende do tempo para se iniciar! Portanto, mamães, fiquem atentas à esses fatores! O segredo é prevenir.

triade de keyes

Focando na Odontopediatria, existe uma terminologia diferenciada da doença cárie que acomete exclusivamente crianças na primeira infância, que se chama cárie precoce da infância, e popularmente é conhecida como cárie de mamadeira. Essa nomenclatura específica para a doença cárie se dá para aqueles casos de crianças que têm o hábito de mamar durante a madrugada e adormecem sem fazer a higienização da boca. Elas costumam ser bem agressivas e evoluem rapidamente! A cárie, de uma maneira geral, caracteriza-se pela desmineralização do dente causada por bactérias que se alimentam de restos alimentares encontrados na boca, principalmente os carboidratos fermentáveis – açúcar e amido (portanto doces em geral, bolo, salgadinhos e biscoitos estão na “lista de perigo”).

doces

Inicialmente as lesões aparecem como manchas brancas nas superfícies dos dentes que possuem um maior acúmulo de placa bacteriana. Quando são detectadas, medidas imediatas são tomadas como mudança na dieta, intensificação da higiene bucal, aplicações tópicas de flúor, etc. Por isso que as visitas regulares ao Odontopediatra são tão valiosas, para que o mesmo possa detectar lesões quando ainda estiverem no seu início, sem chegar ao ponto de destruir os dentinhos! Agora, atenção mamães: apesar do nome popular, esse tipo de lesão de cárie não se forma somente com o uso da mamadeira! Crianças que mamam no peito também estão sujeitas, pois o leite materno também pode causar a formação de lesões de cárie, já que é rico em açúcar! Portanto, qual é a melhor maneira de evitar a formação de cárie precoce na infância? Assim que começar a erupção dos dentinhos do seu bebê, inicie imediatamente a higienização com o uso de escovinhas e escove regularmente após as refeições/mamadas com o uso de creme dental COM flúor na concentração a partir de 1.100 ppm, obedecendo as medidas de 1 grão de arroz cru para crianças que não sabem cuspir e 1 grão de ervilha para crianças que cospem. Seguindo essas medidas preventivas, você estará assegurando que o seu filhote não sofra desse mal e estará favorecendo para que ele sempre tenha o seu desenvolvimento com saúde, pois criança para ser saudável precisa ter a boca saudável!


13
julho
2015
O diário alimentar na Odontopediatria

diario alimentar

O Odontopediatra tem um papel muito forte na promoção de saúde bucal e no desenvolvimento de bons hábitos na vida da criança. Sendo assim, a orientação da alimentação e as suas modificações ao longo da vida, tal qual o controle de ingestão do açúcar devem ser feitos também pelo profissional, já que estes influenciam fortemente no desenvolvimento da cavidade bucal e também na instalação da doença cárie, que é o principal vilão da Odontologia e problema de saúde pública.

Normalmente o Odontopediatra solicita um diário alimentar aos pais do seu paciente que possui risco ou já possui cárie, a fim de investigar onde está ocorrendo o maior erro na alimentação, visto que a cárie é uma doença dependente da presença de placa bacteriana depositada no dente, esta que só se forma mediante a falta da escovação após a alimentação – em especial quando são ingeridos alimentos ricos em açúcar (sacarose). Sendo assim, o profissional solicita este diário com o principal objetivo de estabelecer estratégias e orientações específicas aos alimentos que fazem parte da rotina da criança, visando a contribuição para uma prática alimentar saudável.

A alimentação da criança é um espelho da alimentação dos pais, aliás, do núcleo familiar como um todo. O estilo de vida materno durante a gestação e nos primeiros meses de maternidade, incluindo os hábitos alimentares inadequados, é considerado um indicador de risco de cárie em crianças. A exposição aos alimentos, considerando a oferta e o acesso (deixar uma bombonière na mesa da sala próxima às crianças, por exemplo), quantidade de consumo diário e frequência, são fatores que influenciam na aceitação alimentar infantil, ou seja, as crianças desenvolvem o seu paladar baseado no paladar dos seus pais. E outro fator ainda mais importante: o paladar dela pode tornar-se mais aguçado para os doces, refrigerantes e fast food se ela for introduzida a esses alimentos antes dos dois anos, portanto cuidado papais e mamães que oferecem essas bobagens para os seus bebês!

alimentação-saudável-durante-a-gravidez

O doce faz parte da infância, das festinhas infantis e de momentos em família, claro. Mas não devem ser majoritários nesses momentos e nem consumidos diariamente, e sim, deixados para ocasiões especiais e finais de semana. E isso vale para toda a família, ok? Lembrem-se sempre: os filhos são o espelho dos pais! O mais importante no consumo controlado do açúcar é a frequência, por incrível que pareça. É muito pior a criança comer em doses pequenas o chocolate ao longo do dia inteiro ao invés de uma quantidade maior de uma vez só. Isso acontece porque a cada momento que ingerimos o doce, ocorre uma acidez na nossa boca, que é normalizada com o nosso próprio organismo que possui um sistema de defesa e também com a escovação com o uso do creme dental com flúor (a grande função do flúor é essa, normalizar o nosso pH). Então, se comermos o doce uma vez, iremos provocar essa acidez só uma vez. Mas se comermos várias vezes, mesmo que sendo pouquinho, iremos provocar essa acidez várias vezes, e aí o dente fica sujeito à atividade de cárie. É justamente esse tipo de orientação que daremos aos pais e ajustaremos o que for necessário quanto ao diário alimentar; eis a sua importância na Odontopediatria!

doces

A infância, de uma maneira geral, caracteriza-se por profundas modificações dietéticas em curtos períodos, sendo assim necessário sempre uma observação e coleta de informações alimentares, permitindo assim resultados positivos. Vejam bem, em momento algum o Odontopediatra substitui o trabalho do nutrólogo, nutricionista ou outra profissional que trabalha com orientação de alimentação. O foco de sua intervenção é na ingestão do açúcar em especial e na sua frequência, pelos motivos já citados anteriormente (controle da doença cárie). É muito importante que o profissional, ao deparar-se com uma criança que apresenta condições físicas e emocionais muito comprometidas e um diário alimentar extremamente pobre em valores nutricionais e rico em gorduras e açúcar, não só oriente os pais do seu ponto de vista odontológico como também encaminhe essa família à um profissional que trabalhe, de forma mais direta e eficiente, no estabelecimento de uma alimentação saudável, pois sabemos que a cárie é só a “ponta do iceberg” em uma criança sobrepeso ou obesa que enfrente fatores muito sérios como colesterol alto, risco de diabetes e doenças cardíacas, dentre outras condições de saúde que são as consequências desses tristes índices que aumentam cada dia mais no nosso país.


30
junho
2015
Ser Odontopediatra é…
parte1
A Odontopediatria exige mais que esforço, mais que dedicação. É preciso também ter dom, vocação, e ter o amor completamente incondicional pelas crianças. Sim, incondicional, porque tem dias que elas estão bem e dias que não. Tem dias que você recebe chutes, palavrões, cuspidas e mordidas no dedo. E tem dias que, desse mesmo pacientinho, você recebe abraços calorosos e beijos molhados! E é preciso amar as crianças nas duas situações. Em um atendimento, é preciso ter a tolerância e paciência de uma mãe, assim como a firmeza para educar e cuidar. Lidar com crianças não é uma ciência exata; não existe fórmula mágica. E apesar de todos os percalços, posso dizer hoje, que sou muito realizada e tenho muita sorte de ter escolhido o caminho que escolhi! Eu nasci para cuidar de crianças e sou totalmente entregue à missão que Deus designou pra mim.
parte 2
Claro que tem dias que nós não estamos tão dispostos a dar um sorriso. É natural. Mas essa regra não se aplica à Odontopediatria. A criança sempre vai esperar de você um afago, um carinho. Mesmo nos seus dias mais difíceis. E um dos grandes desafios da Odontopediatria é saber deixar os problemas em casa e levar para o trabalho apenas sentimentos positivos. Normalmente, mesmo nos meus dias mais tensos, o amor que recebo das crianças me preenche de forma que ameniza, e algumas vezes, até supera qualquer problema. Até porque para o Odontopediatra não tem nada mais satisfatório do que um abraço gostoso no final do atendimento. Ou aquele paciente que chorou durante várias sessões, e hoje abre o “bocão de jacaré” com o maior gosto, mostrando pra você o quanto está empenhado em cuidar dos dentinhos. Esse sentimento de satisfação é inigualável! E no final, tudo fica mais leve. Essa é a principal dádiva da Odontopediatria; a leveza e pureza das crianças!
parte 3
E não adianta ser “adulto”. O Odontopediatra precisa ser lúdico, ligado no mundo infantil. Precisa gostar de sentar no chão e brincar, ler livros infantis, cantar músicas dos desenhos animados da moda, ter brinquedos e cores no consultório. Só assim o seu pacientinho vai achar você legal, confiável, amigo. Não adianta você ter pressa em atender vários pacientes para ter mais giro no consultório. Tem paciente que vai te tomar duas horas de atendimento; tem aqueles que vão só pra “brincar” com você. E a brincadeira faz parte do seu trabalho. Não tem jeito; Odontopediatra precisa gostar de brincar! E não é gostoso? Tem coisa mais deliciosa do que viver no mundo lúdico e fazer disso a sua profissão? Eu acho que não tem coisa melhor. É o maior privilégio da minha vida poder estar rodeada de crianças e poder me sentir uma de vez em quando!
parte 4
Ser Odontopediatra vai além do básico “diagnosticar-executar”. Envolve inovação, criatividade, psicologia, tato. É preciso estar sempre atualizando-se com o que anda acontecendo no mundo infantil: Elsa, Peppa, George, Dora, Simba, Nemo, Olaf e todos os outros personagens infantis tornam-se seus íntimos amigos e você falará deles constantemente no seu consultório! E o atendimento? A máscara precisa ter nariz de palhaço, as touquinhas precisam ser coloridas, os jalecos precisam ter estampas? É preciso ter bichos de pelúcia pendurados no refletor e brinquedos espalhados pelo consultório para que se consiga atender uma criança? Não, claro que não! Nada disso é obrigatório e nem te torna “mais” Odontopediatra que o outro profissional. Nada supera o conhecimento. Mas se a prática do ludoatendimento (atendimento com bases lúdicas) cientificamente comprova que acelera o condicionamento e a aceitação da criança no consultório, porque não usar? Então, vamos inovar!
parte 5
Odontopediatra tem que ter mesmo um “quê” de mãe, que é se desprender de todo tipo de paranóia com organização constante. Porque criança faz bagunça. Criança gosta de mexer e explorar. Criança faz “xixi”, “cocô” e vomita também. E muitas vezes fará em seu consultório e até no seu colo (aconteceu essa semana comigo rsrsrs). E você vai precisar limpar e organizar tudo de volta várias vezes ao dia, entre os atendimentos. E você não pode ficar zangado com a criança que explora o seu consultório. Nem tem o direito, na verdade, isso se chama bom senso. Crianças são crianças e devem ser respeitadas por quem são, e nunca devemos proibi-las de viver a sua essência, a sua energia. É claro que limites precisam ser impostos, no consultório e em casa, pelos pais e por você. A criança precisa ser livre, mas precisa ser educada. Portanto, ela não pode quebrar objetos em seu consultório, chutar, cuspir no chão e derrubar as coisas propositalmente. Mas abrir gavetas, espalhar os brinquedos, pegar no seu espelhinho clínico, mexer nos seus cartões de visita e tirar da ordem as suas escovas e cremes dentais ela pode. Porque ela está explorando quando faz isso, e se você a permitir ela irá adquirir uma confiança no seu consultório e em você. Portanto, deixe-a à vontade! Esse gesto será benéfico na sua relação não só com ela, mas com a família inteira também! E irá repercutir positivamente no seu atendimento.
parte 6
Porque todo Odontopediatra tem um instinto materno/paterno mais aguçado do que o das outras pessoas que não trabalham com crianças. Esse é o sentimento mais básico  e mais verdadeiro que surge quando você pega um pacientinho no colo, ou quando recebe aquele abraço apertado no final do atendimento. A magia de trabalhar com crianças transborda em você o mais puro amor, que é o de uma mãe/pai pelo seu filho! Tanto que quem começa na Odontopediatria sem jeito para carregar criança vai aprender. O “nojinho” do xixi e da caquinha do bebê que você sente você vai perder, da mesma forma que uma mãe perde e se acostuma com as baguncinhas do dia-a-dia de uma criança. A sua disposição de brincar no chão, a criatividade que com o tempo passa a florescer nas suas conversas, nas suas músicas (sim, aquelas que você inventa repentinamente e o seu paciente adora!), e tudo o mais que surge na sua rotina de trabalho tem a ver com o seu domínio das técnicas de psicologia em Odontopediatria sim, mas em partes também se dão devido ao seu instinto que, quer queira ou não, existe lá dentro de você, mesmo se você não quiser ter filhos no momento ou na vida. É inegável, irrevogável e cientificamente comprovado, além de ser bom demais!
parte 7
Ser Odontopediatra é ser maleável. Você precisa impor limites aos seus pacientes, mas um pouco de carinho não faz mal a ninguém. O Odontopediatra precisa ser doce, saber acalentar, e precisa, dentro dos limites do aceitável, tornar os seus pacientinhos felizes o máximo possível. É claro que eles não ficarão felizes na hora da anestesia, ou do “motorzinho”. São nesses momentos que você precisa mostrar a sua firmeza sem perder a meiguice, a leveza e o afeto. Até na hora de brigar é preciso um pouco de “morde e assopra”. Lembre que o seu papel é de educador também, e hostilidade não serve para educar ninguém. A criança precisa de regras, mas também de carinho. O carinho faz parte da conquista, do desenvolvimento da confiança. O seu pacientinho quer uma luva? Dê a ele. Significa que ele quer ser igual a você. Tem condicionamento melhor que esse? Encoraja ele a se aproximar do seu ambiente, do seu mundo. E deixe-o dividir o dele com você. Ouça as suas histórias, as suas fantasias. Essa mescla é o ponto principal da relação dos dois, e o resultado disso é puro sucesso no atendimento, e no futuro da saúde bucal da criança.
parte 8
Ser Odontopediatra é também compreender que você não levará uma medalha pra casa sempre. Que cada dia se mata um leão. Os momentos bons existirão, e com bastante frequência, e trarão a você uma imensa satisfação. Mas os maus dias…esses virão também, muitas vezes inesperadamente, e serão arrebatadores e podem te deixar bem pra baixo. É muito importante que se tenha em mente que ser um excelente profissional (e isso vale para todas as áreas, não só a Odontopediatria) é dar o melhor de si, utilizando o seu esforço, conhecimento técnico-científico e a sua vocação para aquele ofício, e isso não significa necessariamente que você conseguirá fazer o trabalho mais perfeito, principalmente ao se tratar de crianças, em que você precisa se desdobrar para conseguir executar os procedimentos em muitos dos casos. Portanto, tenha sempre ORGULHO de si, independente do dia em que estiver vivendo. Aquela restauração não saiu tão bonitinha como você queria? Mas o paciente era bebê, se debatia e chorava muito, vomitou na sua sala, mordeu o seu dedo, pulava loucamente na cadeira e você fez o que pôde naquela situação? Então tenha orgulho de si! Pois tem muitos profissionais que nessas mesmas situações nem isso conseguem fazer. Pense sempre em melhorar, é FATO, você nunca deve achar que o seu trabalho já atingiu o maior nível de excelência. Esteja sempre atualizando-se para dar o melhor para os seus pacientes. Mas lembre-se que para a Odontopediatria não existe fórmula mágica, e procure enxergar sempre o lado positivo de qualquer situação. E não esqueçam: tenham sempre muito orgulho de si no final do dia!