Tia Roberta Odontopediatra » pré-eclâmpsia
17
novembro
2015
A doença periodontal e complicações na gestação

prematuro

Oi pessoal! Hoje é o Dia Internacional da Prematuridade, e pensando nos cuidados apropriados durante a gravidez, a fim de prevenir qualquer tipo de complicação, não poderia deixar de vir na minha mente a saúde bucal e a importância das consultas odontológicas nesse período, a fim de prevenir uma série de condições bucais, em especial a doença periodontal.

Já é de conhecimento popular que durante a gravidez as taxas hormonais da mulher sofrem aumentos bruscos, sendo esta uma condição que auxilia no desenvolvimento de reações inflamatórias gengivais. Por esse e por outros motivos é muito importante que o controle do biofilme dentário seja feito de forma rigorosa neste período tão delicado, pois o mesmo evita a inflamação e o sangramento. Um outro motivo da importância do controle do biofilme é que as gestantes devem se alimentar corretamente para gerar os seus bebês com saúde, não devendo portanto possuir dores, mobilidade dentária, ou qualquer tipo de desconforto na cavidade bucal, o que comprometeria a sua qualidade de vida; outro fator importantíssimo é a questão de que infecções periodontais podem se disseminar pela corrente sanguínea, estimulando portanto a produção de citocinas inflamatórias, que provocam complicações gestacionais graves – como o parto prematuro, recém-nascidos de baixo peso e pré-eclâmpsia.

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Os estudos mais recentes têm avaliado e comprovado a real possibilidade da penetração dos agentes infectantes de bolsas periodontais na corrente sanguínea, baseando-se no exemplo mais conhecido, que é o risco de desenvolvimento de endocardite bacteriana em pacientes com algumas cardiopatias. Doenças como diabetes mellitus e alterações cardiovasculares também são condições em que pode ocorrer um risco maior de complicações por disseminação  sanguínea de citocinas e bactérias periodontopatogênicas.

Estudos demonstraram que infecções periodontais são consideradas um dos fatores etiológicos do parto pré-termo espontâneo, juntamente com as infecções genitourinárias, que ainda são consideradas as mais graves durante a gestação, e não desmerecendo as infecções de outras partes do organismo. A pré-eclâmpsia, que acomete 5% a 8% das gestantes dos países em desenvolvimento está altamente relacionada à alta morbimortalidade materna e fetal. A sua etiologia está altamente relacionada a primiparidade (primeiro parto), obesidade, alterações renais, e infecções periodontais, como tem apontado os últimos estudos na área.

Bom, o que devemos ter em  mente com a leitura desse post é que a saúde bucal é fundamental em qualquer momento de nossas vidas, e NUNCA deve ser negligenciada, como infelizmente acaba acontecendo com algumas mulheres no período gravídico. A avaliação odontológica periódica da gestante deve ser estimulada e incentivada no âmbito privado e público, possibilitando assim que a mesma tenha o conhecimento dos riscos pela falta de higiene, e que possua todos os cuidados necessários para garantir uma gestação com saúde.

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Referências bibliográficas: Tratamento odontológico para gestantes, 2ª edição – Sandra Echeverria e Gabriel Tilli Politano, Ed. Santos.


7
julho
2015
Mitos e verdades sobre a gestação e o atendimento odontológico

gestante odonto

Recentemente fiz um curso de pré-natal odontológico com o Prof. Gabriel Politano no Ateliê Oral, e aprendi muito sobre o atendimento durante a gestação, as suas peculiaridades e mitos que envolvem as grávidas no consultório. Sendo assim, hoje irei esclarecer algumas dúvidas que várias futuras mamães tem sobre o atendimento odontológico durante a gestação: afinal, grávida pode ou não ir ao dentista? Antigamente (e pra ser sincera, até hoje alguns profissionais ainda seguem essa linha) a gestante possuía uma série de restrições quanto ao atendimento, que ia desde o uso de anestésicos e medicamentos, à execução propriamente dita de alguns procedimentos. Além disso, com os avanços nos estudos e pesquisas, foram descobertos alguns fatos extremamente importantes sobre a gestante e a saúde bucal que ainda estão pouco divulgados nos consultórios e na sociedade de uma maneira geral. Sendo assim, achei interessante fazer uma sessão de “perguntas e respostas” desmistificando essas informações sobre as gestantes e a Odontologia:

1- Gestante pode ir ao dentista? Se sim, em qual trimestre?

Resposta: SIM! A gestante não só pode como DEVE frequentar o dentista durante a gestação, inclusive hoje em dia está implantado no atendimento público e privado o pré-natal odontológico, em que a gestante realiza consultas rotineiras durante a gestação a fim de manter-se atualizada quanto aos cuidados com a saúde bucal sua e do bebê, e também para prevenir o aparecimento de alguma lesão de cárie, gengivite, ou algum outro problema. O atendimento está estendido para QUALQUER época da gestação, principalmente quando se trata de sanar algum tipo de dor dentária ou doença periodontal que a gestante estiver passando, pois manter um estado de doença é muito mais arriscado do que qualquer outra conduta curativa, sem falar que já foi comprovado cientificamente que o bebê não sofre e nem tem risco algum com o tipo de medicamento e anestésico que usamos (salvo algumas exceções que veremos a seguir), mesmo na fase da organogênese; o bom senso, contudo, precisa  ser mantido sempre.

 

2- A gestante pode receber anestesia local? Se sim, qual é o melhor anestésico?

Resposta: SIM! A gestante pode ser anestesiada, obedecendo a dosagem de até 2 tubetes anestésicos por sessão, e o anestésico pode ser com vasoconstritor sim, pois isso é o que irá garantir a absorção mais lenta do anestésico, evitando assim uma toxicidade alta na mãe e bebê (que ainda não tem o seu fígado, onde essa substância é metabolizada, completamente formado), pois a falta do vasoconstritor promove uma vasodilatação excessiva, atingindo níveis sanguíneos muito altos, sem falar que os anestésicos sem vasoconstritor (com exceção da mepivacaína a 3% sem vaso, que tem a indicação para gestantes sistemicamente comprometidas) tem durabilidade muito curta, o que é inviável no atendimento padrão. Existem vários anestésicos no mercado, e não iremos abordar todos eles porque senão o post fica muito longo, mas o que é preconizado como o melhor anestésico para o atendimento de gestantes é a lidocaína a 2% com 1:100.000 (ou 1:200.000, que é melhor ainda, mas mais difícil de encontrar no mercado) de epinefrina.  Lembrando que estamos falando dessa seguinte indicação nos baseando em gestantes sem comprometimento sistêmico (nesses casos, SEMPRE deve-se ligar para o médico da paciente a fim de conhecer o seu estado de saúde), e com aplicação da técnica anestésica corretamente, ou seja, extra-vascular e injeção lenta. Vamos lembrar que a aspiração SEMPRE deve ser feita, não só nas gestantes, mas em qualquer paciente.

 

3- A gestante pode fazer clareamento dentário ou outros procedimentos eletivos, como implantes?

Resposta: Depende. É aí que entra o bom senso que conversamos acima. Particularmente, não indico a realização de clareamento dentário na gravidez, por se tratar de um procedimento estético e que não tem urgência alguma na vida da gestante. Quanto aos implantes, a indicação só faria sentido caso essa paciente tenha perdido o elemento durante a gravidez e seja na região anterior, comprometendo a sua vida social e emocional, o que nesse caso, acho válido pensar na possibilidade, mas do contrário também não vejo porque realizar este procedimento justamente durante a gestação.

 

4- Quanto aos medicamentos, posso prescrever qualquer um à gestante?

Resposta:  NÃO. Alguns medicamentos entram na escala de risco da FDA e não devem ser prescritos à gestantes, como os antiinflamatórios AINES (não esteroidais), por exemplo, que bloqueiam a prostraglandina provocando inércia uterina e fechamento do ducto do canal arterial, além de hipertensão pulmonar. Na literatura já foi relatado um caso de prescrição de Cataflam por 5 dias à uma gestante e o resultado de óbito fetal. Caso seja extremamente necessário o uso de antiinflamatórios, devemos optar pelos corticóides, mas se puder, que seja evitado o seu uso de uma maneira geral. O antibiótico Metronidazol não tem ressalvas, mas por se tratar de um medicamento controverso quanto aos seus estudos, o bom senso indica que seja evitado na gestação. O antibiótico de escolha para a gestante é a Amoxicilina, e quanto aos analgésicos podemos optar pelo Paracetamol, mas a Dipirona não é contra-indicada, também podendo ser prescrita caso seja a preferência da gestante.

 

5- As doenças bucais provocam malefícios à saúde da gestante e do bebê? Qual é o risco?

Resposta: SIM! As doenças bucais, em especial às infecções gengivais, provocam perigos para a gestante; recentemente, estudos descobriram que as bactérias periodontopatogênicas disseminam-se rapidamente na circulação sanguínea, provocando a liberação de prostraglandina, hormônio fisiológico que provoca contração uterina, colocando a gestante dessa forma em risco de parto prematuro. Foi averiguado em um determinado estudo que cerca de 70% das gestantes pesquisadas que tiveram pré-eclâmpsia (hipertensão após 20 semanas de gestação com perda de proteína na urina – proteinúria) possuíam infecções periodontais, tornando assim, a saúde bucal e a necessidade de visitar um dentista durante a gestação, extremamente importantes.

 

6- A gestante pode fazer tratamento de canal?

Resposta: SIM, a gestante pode fazer, pois, partindo do princípio que o tratamento de canal envolve uma lesão de cárie avançada e muitas vezes sintomatologia dolorosa, a gestante precisa ter a sua saúde sanada, pois a situação atual é de sofrimento.

 

7- E se tiver que fazer radiografias, é perigoso para o bebê?

Resposta: NÃO, hoje em dia já foi constatado que as tomadas radiográficas no consultório odontológico possuem uma quantidade de radiação extremamente baixa, e a aplicação da mesma usando proteção com avental de chumbo e protetor de tireóide, não trará nenhum tipo de prejuízo na mãe e bebê em nenhum período da gestação.

 

8- E a prevenção com flúor, precisa fazer? É verdade que a gestante precisa usar flúor para prevenir cáries nos dentes do seu bebê? 

Resposta: NÃO, não é necessário fazer nenhum tipo de prevenção com flúor visando a saúde bucal do bebê, pois sabe-se que a ação primordial dele é TÓPICA, ou seja, é com o contato direto do flúor nos dentes, portanto não traz nenhum tipo de benefício. A gestante pode fazer aplicações tópicas no consultório caso o dentista julgue necessário visando a sua própria saúde.

Bom, acredito que as perguntas principais sobre o atendimento de gestantes são essas. A literatura que utilizei para elaborar esse post foi o livro Tratamento Odontológico para Gestantes, que eu adoro!

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Caso tenham ainda alguma dúvida, é só deixar a sua pergunta no nosso espaço de comentários. Beijos!