Tia Roberta Odontopediatra » prevenção
7
julho
2015
Mitos e verdades sobre a gestação e o atendimento odontológico

gestante odonto

Recentemente fiz um curso de pré-natal odontológico com o Prof. Gabriel Politano no Ateliê Oral, e aprendi muito sobre o atendimento durante a gestação, as suas peculiaridades e mitos que envolvem as grávidas no consultório. Sendo assim, hoje irei esclarecer algumas dúvidas que várias futuras mamães tem sobre o atendimento odontológico durante a gestação: afinal, grávida pode ou não ir ao dentista? Antigamente (e pra ser sincera, até hoje alguns profissionais ainda seguem essa linha) a gestante possuía uma série de restrições quanto ao atendimento, que ia desde o uso de anestésicos e medicamentos, à execução propriamente dita de alguns procedimentos. Além disso, com os avanços nos estudos e pesquisas, foram descobertos alguns fatos extremamente importantes sobre a gestante e a saúde bucal que ainda estão pouco divulgados nos consultórios e na sociedade de uma maneira geral. Sendo assim, achei interessante fazer uma sessão de “perguntas e respostas” desmistificando essas informações sobre as gestantes e a Odontologia:

1- Gestante pode ir ao dentista? Se sim, em qual trimestre?

Resposta: SIM! A gestante não só pode como DEVE frequentar o dentista durante a gestação, inclusive hoje em dia está implantado no atendimento público e privado o pré-natal odontológico, em que a gestante realiza consultas rotineiras durante a gestação a fim de manter-se atualizada quanto aos cuidados com a saúde bucal sua e do bebê, e também para prevenir o aparecimento de alguma lesão de cárie, gengivite, ou algum outro problema. O atendimento está estendido para QUALQUER época da gestação, principalmente quando se trata de sanar algum tipo de dor dentária ou doença periodontal que a gestante estiver passando, pois manter um estado de doença é muito mais arriscado do que qualquer outra conduta curativa, sem falar que já foi comprovado cientificamente que o bebê não sofre e nem tem risco algum com o tipo de medicamento e anestésico que usamos (salvo algumas exceções que veremos a seguir), mesmo na fase da organogênese; o bom senso, contudo, precisa  ser mantido sempre.

 

2- A gestante pode receber anestesia local? Se sim, qual é o melhor anestésico?

Resposta: SIM! A gestante pode ser anestesiada, obedecendo a dosagem de até 2 tubetes anestésicos por sessão, e o anestésico pode ser com vasoconstritor sim, pois isso é o que irá garantir a absorção mais lenta do anestésico, evitando assim uma toxicidade alta na mãe e bebê (que ainda não tem o seu fígado, onde essa substância é metabolizada, completamente formado), pois a falta do vasoconstritor promove uma vasodilatação excessiva, atingindo níveis sanguíneos muito altos, sem falar que os anestésicos sem vasoconstritor (com exceção da mepivacaína a 3% sem vaso, que tem a indicação para gestantes sistemicamente comprometidas) tem durabilidade muito curta, o que é inviável no atendimento padrão. Existem vários anestésicos no mercado, e não iremos abordar todos eles porque senão o post fica muito longo, mas o que é preconizado como o melhor anestésico para o atendimento de gestantes é a lidocaína a 2% com 1:100.000 (ou 1:200.000, que é melhor ainda, mas mais difícil de encontrar no mercado) de epinefrina.  Lembrando que estamos falando dessa seguinte indicação nos baseando em gestantes sem comprometimento sistêmico (nesses casos, SEMPRE deve-se ligar para o médico da paciente a fim de conhecer o seu estado de saúde), e com aplicação da técnica anestésica corretamente, ou seja, extra-vascular e injeção lenta. Vamos lembrar que a aspiração SEMPRE deve ser feita, não só nas gestantes, mas em qualquer paciente.

 

3- A gestante pode fazer clareamento dentário ou outros procedimentos eletivos, como implantes?

Resposta: Depende. É aí que entra o bom senso que conversamos acima. Particularmente, não indico a realização de clareamento dentário na gravidez, por se tratar de um procedimento estético e que não tem urgência alguma na vida da gestante. Quanto aos implantes, a indicação só faria sentido caso essa paciente tenha perdido o elemento durante a gravidez e seja na região anterior, comprometendo a sua vida social e emocional, o que nesse caso, acho válido pensar na possibilidade, mas do contrário também não vejo porque realizar este procedimento justamente durante a gestação.

 

4- Quanto aos medicamentos, posso prescrever qualquer um à gestante?

Resposta:  NÃO. Alguns medicamentos entram na escala de risco da FDA e não devem ser prescritos à gestantes, como os antiinflamatórios AINES (não esteroidais), por exemplo, que bloqueiam a prostraglandina provocando inércia uterina e fechamento do ducto do canal arterial, além de hipertensão pulmonar. Na literatura já foi relatado um caso de prescrição de Cataflam por 5 dias à uma gestante e o resultado de óbito fetal. Caso seja extremamente necessário o uso de antiinflamatórios, devemos optar pelos corticóides, mas se puder, que seja evitado o seu uso de uma maneira geral. O antibiótico Metronidazol não tem ressalvas, mas por se tratar de um medicamento controverso quanto aos seus estudos, o bom senso indica que seja evitado na gestação. O antibiótico de escolha para a gestante é a Amoxicilina, e quanto aos analgésicos podemos optar pelo Paracetamol, mas a Dipirona não é contra-indicada, também podendo ser prescrita caso seja a preferência da gestante.

 

5- As doenças bucais provocam malefícios à saúde da gestante e do bebê? Qual é o risco?

Resposta: SIM! As doenças bucais, em especial às infecções gengivais, provocam perigos para a gestante; recentemente, estudos descobriram que as bactérias periodontopatogênicas disseminam-se rapidamente na circulação sanguínea, provocando a liberação de prostraglandina, hormônio fisiológico que provoca contração uterina, colocando a gestante dessa forma em risco de parto prematuro. Foi averiguado em um determinado estudo que cerca de 70% das gestantes pesquisadas que tiveram pré-eclâmpsia (hipertensão após 20 semanas de gestação com perda de proteína na urina – proteinúria) possuíam infecções periodontais, tornando assim, a saúde bucal e a necessidade de visitar um dentista durante a gestação, extremamente importantes.

 

6- A gestante pode fazer tratamento de canal?

Resposta: SIM, a gestante pode fazer, pois, partindo do princípio que o tratamento de canal envolve uma lesão de cárie avançada e muitas vezes sintomatologia dolorosa, a gestante precisa ter a sua saúde sanada, pois a situação atual é de sofrimento.

 

7- E se tiver que fazer radiografias, é perigoso para o bebê?

Resposta: NÃO, hoje em dia já foi constatado que as tomadas radiográficas no consultório odontológico possuem uma quantidade de radiação extremamente baixa, e a aplicação da mesma usando proteção com avental de chumbo e protetor de tireóide, não trará nenhum tipo de prejuízo na mãe e bebê em nenhum período da gestação.

 

8- E a prevenção com flúor, precisa fazer? É verdade que a gestante precisa usar flúor para prevenir cáries nos dentes do seu bebê? 

Resposta: NÃO, não é necessário fazer nenhum tipo de prevenção com flúor visando a saúde bucal do bebê, pois sabe-se que a ação primordial dele é TÓPICA, ou seja, é com o contato direto do flúor nos dentes, portanto não traz nenhum tipo de benefício. A gestante pode fazer aplicações tópicas no consultório caso o dentista julgue necessário visando a sua própria saúde.

Bom, acredito que as perguntas principais sobre o atendimento de gestantes são essas. A literatura que utilizei para elaborar esse post foi o livro Tratamento Odontológico para Gestantes, que eu adoro!

livro_gabriel_site

Caso tenham ainda alguma dúvida, é só deixar a sua pergunta no nosso espaço de comentários. Beijos!


3
julho
2015
Odontologia neonatal e para bebês
O assunto que eu vou abordar hoje é super bacana e interessante, não só pra quem é da área, mas também para mamães e gravidinhas; a Odontologia neonatal e para bebês! Nós, Odontopediatras, também participamos no momento mais sublime da vida de uma mãe e o seu bebê: o nascimento. O profissional atua no ambiente hospitalar, fazendo acompanhamento no puerpério de bebês, tanto no alojamento conjunto, como na unidade de médio risco ou na UTI neonatal, também prestando acompanhamento em bebês com necessidades especiais e prematuros.
O profissional presta apoio e amparo nos cuidados de rotina dessa fase, como no manejo do aleitamento materno (analisando as condições de sucção, respiração e deglutição), e também na possível detecção de anomalias bucais do recém-nascido, como dentes natais e neonatais, anquiloglossia, fissuras labiopalatais, nódulos de Bohn, dentre outras).
Dentes Natais e Neonatais:
dente natal
Uma nas anomalias bucais vistas com mais frequência são os dentes natais e neonatais. Os dentes natais são aqueles que estão presentes no nascimento da criança, ou seja, ela nasce com dentes (geralmente, não são mais de dois, e os mais acometidos são os incisivos inferiores), enquanto os dentes neonatais são aqueles que erupcionam ao longo dos 30 dias de vida do neonato. Esses dentinhos que erupcionam com alta precocidade podem ser da série normal ou supranumerários, ou seja, são dentes a mais que erupcionam na boca, ultrapassando a contagem padrão de 20 dentes decíduos (de leite). Quando se descobre a presença desses dentinhos, deve-se fazer uma tomada radiográfica para descobrir esse dado, e decidir se devemos removê-lo ou não. Quando o dente está com mobilidade, independente de ser de série ou não, devemos realizar a extração desse dentinho, pois a falta de estabilidade do elemento na boquinha do bebê pode gerar uma possível deglutição ou aspiração, o que é pior.
Nódulos de Bohn:
nodulos de bohn
Outro grupo de lesões frequentes na cavidade bucal do neonato são os nódulos de Bohn, que caracterizam-se por serem nódulos (como se fossem bolinhas esbranquiçadas) localizados nos rodetes gengivais, tendo preferência na região ântero-superior. Normalmente, a conduta é fazer um acompanhamento pelo Odontológo, pois a tendência é o desaparecimento dos mesmos.
Pérolas de Epstein:
perolas de epstein
As pérolas de Epstein também classificam-se como nódulos císticos que possuem características clínicas semelhantes aos nódulos de Bohn, porém tem menor prevalência e localizam-se preferencialmente na região palatina (no céu da boca).
Fissuras Labiopalatais:
fissuras labiopalatais
As fissuras labiopalatais são anomalias de caráter mais sério, e ocorrem devido à malformações no período embrionário (entre a quinta e a décima segunda semana de vida intrauterina). Essas fendas são encontradas com mais frequência na região do lábio superior e do palato (céu da boca), portanto, acometem geralmente o osso da maxila. Elas podem ser somente teciduais, não envolvendo os ossos, como também como acometer toda a estrutura óssea dessa região. As fissuras labiopalatais podem estar ligadas à fatores genéticos e síndromes.
Lesão de Riga-Fede:
riga fede
Esta lesão, cujo nome foi dedicado aos pesquisadores que a descobriram, apresenta-se como uma ulceração traumática na porção ventral da língua (embaixo da língua), provocada pela presença dos dentes natais/neonatais, estando essas duas anomalias, portanto, ligadas. A dor dessa ulceração pode provocar no bebê desidratação, dificuldades na amamentação, além de aumentar o potencial de infecção na área.
Cisto de Erupção:
cisto de erupcao
É um cisto cuja lesão envolve a coroa de um dente ainda não irrompido (ou seja, um dente que ainda não nasceu mais está prestes a nascer), podendo ser da série normal ou supranumerário, decíduo (de leite) ou permanente, formando uma espécie de “bolha” em cima dos dentes que encontram-se nesse estágio. Quando o cisto se prolonga e não ocorre a irrupção do dente, provocando uma retenção na erupção do mesmo, a conduta mais adequada é remover cirurgicamente o cisto.
Hematoma de Erupção:
hematoma de erupcao
É uma variação do cisto de erupção que é hemorrágica, ou seja, dentro da bolha do cisto contém sangue, dando à lesão uma cor azulada ou arroxeada, como se fosse um hematoma mesmo. A conduta de tratamento é semelhante.
Anquiloglossia (Língua presa):
anquiloglossia
Caracteriza-se pela união da ponta da língua ao soalho bucal, a parte mais inferior da boca, provocando uma dificuldade na movimentação da língua, pois a mesma fica presa. Essa limitação motora provoca deficiência ou impossibilidade na amamentação, alimentação, fonação e desenvolvimento dos maxilares. Visto isso, hoje em dia já foi decretado como Lei o “Teste da Linguinha”, o qual o neonato passa por uma avaliação se a sua língua encontra-se presa ou não, devendo realizar cirurgicamente, a frenectomia lingual (cirurgia que remove essa união), em casos de teste positivo.
Existem ainda diversas lesões e anomalias que acometem neonatos e bebês, porém as de maior prevalência encontram-se nestes dois posts. Para maiores informações, consultem a literatura que trata a respeito de Odontologia para Bebês! Super indico o livro “Manual de Odontologia para Bebês”, que usei como referência bibliográfica para a elaboração desse post.
livro manual

2
julho
2015
O pré-natal odontológico

Há quem vai ficar surpreso e vai pensar: “nossa, mas Odontopediatra atende gestantes?” E a resposta é SIM! Nos cursos atuais de especializações em Odontopediatria, já está implementado o aprendizado da conduta de atendimento às gestantes no que chamamos do PRÉ-NATAL ODONTOLÓGICO. Hoje em dia, é de conhecimento por profissionais e pelo público em geral que a saúde bucal do bebê se inicia ainda na gestação da mamãe, pois a formação e desenvolvimento da sua cavidade bucal e consequentemente dentes se dá a partir da quinta semana de vida intrauterina. Sendo assim, é de extrema importância que a futura mamãe tenha ciência dos cuidados que deve tomar consigo mesma, e indiretamente, com o seu bebê, já que tudo o que ela ingere é passado para ele.

intrauterina

Muitas pessoas não sabem que problemas de hipovitaminose (deficiência de vitaminas, mas precisamente a vitamina A, C e D), e desequilíbrios de ordem endócrina (como hipertireoidismo e diabetes não compensados, por exemplo), são fatores que, ocorrentes na gravidez, provocam a desestruturação da formação do órgão dentário do bebê, como falhas na formação do esmalte, por exemplo. É também igualmente importante que a mesma faça nesse período tão especial e cheio de alterações hormonais e metabólicas um controle rigoroso de sua saúde bucal – visando a sua própria saúde, e mais uma vez, indiretamente, a do seu filho. E como ter todas essas informações e tomar todos esses cuidados? É aí que entra o pré-natal odontológico! O seu objetivo não é somente as consultas trimestrais de prevenção, mas também as sessões educativas para a futura mamãe e para todo o núcleo familiar, atuando também no combate de um dos maiores problemas odontológicos que é a doença cárie.

gestante

Na prática dos conceitos que o atendimento odontológico da gestante preconiza, a mesma estará cuidando da saúde bucal dela e do seu bebê, sendo assim, um investimento e proteção ao seu bem mais precioso. E lembrem-se: O Odontopediatra é apto para fazer esse atendimento!

Recentemente (27/06/15) participei do curso de Odontologia neonatal e para gestantes, realizado na renomada clínica em São Paulo – SP, a Ateliê Oral, com o professor Gabriel Politano, que é autor do livro  “Tratamento odontológico para gestantes”. Me sinto atualmente mais capacitada para atender as gravidinhas e realizar o pré-natal odontológico, e pretendo escrever um post exclusivo sobre o curso e sobre tudo o que eu aprendi! Eu super indico a aquisição do livro para todos os Odontopediatras e também o curso, achei super válida a experiência!

livro_gabriel_site

Finalizo esse post com algumas fotos que registrei do curso:

curso atelie

Com os professores Regina Siegl e Gabriel Politano.

curso atelie2

cursoatelie3

Apaixonada por essa almofada! Rs

Espero que tenham gostado! Beijos em todos! xoxo