Tia Roberta Odontopediatra » saúde bucal
4
março
2016
Ionômero, o queridinho da Odontopediatria

Bom dia, sexta-feira!

Resolvi fazer algumas mudanças nos horários e datas de postagens do blog…porque antes eu estava postando de dois em dois dias, e percebi que estava “vomitando” muito conteúdo de uma vez. Nem todo mundo estava conseguindo ler todos os posts. Portanto, resolvi postar semanalmente, pois assim vocês passam sete dias com conteúdo fresquinho e aí conseguem ler tudinho. Como nas sextas eu não trabalho pela manhã (é um dia que eu tiro pra resolver outras coisas fora do consultório e cuidar das redes sociais, etc…), resolvi me dedicar ao blog nesse momento. Mas, chega de papo furado! Hoje o tema é CIV (Cimento de Ionômero de Vidro), o queridinho da Odontopediatria e da minha vida! Rsrsrs

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No tratamento restaurador da dentição decídua o CIV é amplamente utilizado, pois apresenta algumas propriedades facilitadoras de sua aplicação em crianças, principalmente as de baixa idade e os bebês. Menor sensibilidade à umidade (quando comparado com a resina), liberação de flúor, adesão química ao esmalte e dentina, biocompatibilidade e expansão térmica semelhante à da estrutura dentária são algumas das suas melhores propriedades. Por cerca de 20 anos, diversos cimentos de ionômero de vidro vêm sido desenvolvidos, como os modificados por resina, que englobam as suas propriedades já citadas, e mais uma melhora na resistência mecânica, características de manipulação superiores e controle de tempo de trabalho.

Na Odontopediatria, o CIV é considerado o material de primeira escolha em restaurações em qualquer cavidade, e também como selantes inclusive, além de ser o material de escolha para restaurações do tipo ART (Tratamento Restaurador Atraumático). Pode ser utilizado também como material de preenchimento em restaurações indiretas em dentes vitais. O CIV modificado por resina tem também a indicação de material definitivo em dentes com esfoliação prevista para até dois anos, dentes anteriores com cárie da primeira infância e também cavidades conservadoras oclusoproximais, vindo em substituição a resina composta e o amálgama.

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Fora da Odontopediatria, o CIV vem sendo utilizado com bastante frequência em cimentações de peças protéticas e ortodônticas, como material para base ou forramento de cavidades dentárias. Também como material restaurador temporário em tratamentos de capeamento indireto e adequação do meio bucal, e também como restaurações definitivas de dentes permanentes onde não existe contato oclusal na região restaurada.

Particularmente, não abro mão do meu CIV no consultório. Como já publiquei no Instagram anteriormente, sou muito fã do Ketac Molar, da marca 3M, pois é considerado um cimento de ionômero de vidro de alta viscosidade e possui evidências científicas e clínicas de que é um bom material restaurador. Algumas vezes me deparo com mães e pais que estranham o uso do CIV, pois estão acostumados com a resina e todo o seu trunfo estético. Mas eu explico que para a idade do seu filho e pelas funções de liberação de flúor (que é, sem dúvidas, a melhor propriedade que ele possui), o CIV é o meu material de escolha. A função de maior resistência à umidade também é, sem dúvidas, uma excelente propriedade, e torna a vida dos dentistas muito mais fácil, pois sabemos o quanto é difícil controlar a salivação de crianças pequenas, principalmente bebês, que se debatem muito e não abrem a boca, e muitas vezes precisamos fazer a estabilização protetora para conseguir atender. Quem é Odontopediatra ou atende crianças, com certeza imaginou a cena, pois é rotineira no consultório! Para nós, que precisamos nos preocupar com tantos aspectos durante o atendimento odontopediátrico, como agilidade do procedimento, segurança do paciente, controle de tempo do atendimento etc, ter um material de fácil uso traz muito conforto no dia-a-dia da Odontopediatria.

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O CIV possui a mesma qualidade estética da resina? Não. Mas, normalmente, eu convenço facilmente os pais a entenderem que, em uma criança com alto risco e atividade de cárie, a estética não é prioritária, e sim, a função dentária, saúde bucal, e qualidade de vida. Os CIVS de marcas bem conceituadas no mercado (como o Ketac Molar, Fuji, Riva, etc) possuem características bem satisfatórias em termos de estética, e os pais dos meus pacientes não costumam reclamar não, pois saem do consultórios educados a entender que a saúde bucal precisa ser estabelecida primordialmente. Não me levem a mal, não estou detonando a resina composta, que é amplamente utilizada na Odontopediatria por diversas indicações. Mas devemos avaliar o paciente individualmente ao tomar a decisão do material restaurador, pensando na sua idade, incidência de cárie, compromisso com a higiene bucal em casa e a possibilidade de um acompanhamento longitudinal.

Sempre falo que o atendimento odontopediátrico é mais do que executar procedimentos. Nós fazemos parte da educação familiar em termos de saúde bucal e conscientização do consumo racional de açúcar. E quando alcançamos esse objetivo em uma família nos sentimos extremamente realizados. A sensação é incrível! Portanto, antes de pensar no que pode vir a ser mais lucrativo ou que trará melhor marketing ao consultório, vamos pensar na qualidade de um atendimento baseado em EVIDÊNCIAS, e com certeza, um trabalho executado com integridade e amor terá sempre consequências positivas.

Um excelente final de semana a todos!


7
julho
2015
Mitos e verdades sobre a gestação e o atendimento odontológico

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Recentemente fiz um curso de pré-natal odontológico com o Prof. Gabriel Politano no Ateliê Oral, e aprendi muito sobre o atendimento durante a gestação, as suas peculiaridades e mitos que envolvem as grávidas no consultório. Sendo assim, hoje irei esclarecer algumas dúvidas que várias futuras mamães tem sobre o atendimento odontológico durante a gestação: afinal, grávida pode ou não ir ao dentista? Antigamente (e pra ser sincera, até hoje alguns profissionais ainda seguem essa linha) a gestante possuía uma série de restrições quanto ao atendimento, que ia desde o uso de anestésicos e medicamentos, à execução propriamente dita de alguns procedimentos. Além disso, com os avanços nos estudos e pesquisas, foram descobertos alguns fatos extremamente importantes sobre a gestante e a saúde bucal que ainda estão pouco divulgados nos consultórios e na sociedade de uma maneira geral. Sendo assim, achei interessante fazer uma sessão de “perguntas e respostas” desmistificando essas informações sobre as gestantes e a Odontologia:

1- Gestante pode ir ao dentista? Se sim, em qual trimestre?

Resposta: SIM! A gestante não só pode como DEVE frequentar o dentista durante a gestação, inclusive hoje em dia está implantado no atendimento público e privado o pré-natal odontológico, em que a gestante realiza consultas rotineiras durante a gestação a fim de manter-se atualizada quanto aos cuidados com a saúde bucal sua e do bebê, e também para prevenir o aparecimento de alguma lesão de cárie, gengivite, ou algum outro problema. O atendimento está estendido para QUALQUER época da gestação, principalmente quando se trata de sanar algum tipo de dor dentária ou doença periodontal que a gestante estiver passando, pois manter um estado de doença é muito mais arriscado do que qualquer outra conduta curativa, sem falar que já foi comprovado cientificamente que o bebê não sofre e nem tem risco algum com o tipo de medicamento e anestésico que usamos (salvo algumas exceções que veremos a seguir), mesmo na fase da organogênese; o bom senso, contudo, precisa  ser mantido sempre.

 

2- A gestante pode receber anestesia local? Se sim, qual é o melhor anestésico?

Resposta: SIM! A gestante pode ser anestesiada, obedecendo a dosagem de até 2 tubetes anestésicos por sessão, e o anestésico pode ser com vasoconstritor sim, pois isso é o que irá garantir a absorção mais lenta do anestésico, evitando assim uma toxicidade alta na mãe e bebê (que ainda não tem o seu fígado, onde essa substância é metabolizada, completamente formado), pois a falta do vasoconstritor promove uma vasodilatação excessiva, atingindo níveis sanguíneos muito altos, sem falar que os anestésicos sem vasoconstritor (com exceção da mepivacaína a 3% sem vaso, que tem a indicação para gestantes sistemicamente comprometidas) tem durabilidade muito curta, o que é inviável no atendimento padrão. Existem vários anestésicos no mercado, e não iremos abordar todos eles porque senão o post fica muito longo, mas o que é preconizado como o melhor anestésico para o atendimento de gestantes é a lidocaína a 2% com 1:100.000 (ou 1:200.000, que é melhor ainda, mas mais difícil de encontrar no mercado) de epinefrina.  Lembrando que estamos falando dessa seguinte indicação nos baseando em gestantes sem comprometimento sistêmico (nesses casos, SEMPRE deve-se ligar para o médico da paciente a fim de conhecer o seu estado de saúde), e com aplicação da técnica anestésica corretamente, ou seja, extra-vascular e injeção lenta. Vamos lembrar que a aspiração SEMPRE deve ser feita, não só nas gestantes, mas em qualquer paciente.

 

3- A gestante pode fazer clareamento dentário ou outros procedimentos eletivos, como implantes?

Resposta: Depende. É aí que entra o bom senso que conversamos acima. Particularmente, não indico a realização de clareamento dentário na gravidez, por se tratar de um procedimento estético e que não tem urgência alguma na vida da gestante. Quanto aos implantes, a indicação só faria sentido caso essa paciente tenha perdido o elemento durante a gravidez e seja na região anterior, comprometendo a sua vida social e emocional, o que nesse caso, acho válido pensar na possibilidade, mas do contrário também não vejo porque realizar este procedimento justamente durante a gestação.

 

4- Quanto aos medicamentos, posso prescrever qualquer um à gestante?

Resposta:  NÃO. Alguns medicamentos entram na escala de risco da FDA e não devem ser prescritos à gestantes, como os antiinflamatórios AINES (não esteroidais), por exemplo, que bloqueiam a prostraglandina provocando inércia uterina e fechamento do ducto do canal arterial, além de hipertensão pulmonar. Na literatura já foi relatado um caso de prescrição de Cataflam por 5 dias à uma gestante e o resultado de óbito fetal. Caso seja extremamente necessário o uso de antiinflamatórios, devemos optar pelos corticóides, mas se puder, que seja evitado o seu uso de uma maneira geral. O antibiótico Metronidazol não tem ressalvas, mas por se tratar de um medicamento controverso quanto aos seus estudos, o bom senso indica que seja evitado na gestação. O antibiótico de escolha para a gestante é a Amoxicilina, e quanto aos analgésicos podemos optar pelo Paracetamol, mas a Dipirona não é contra-indicada, também podendo ser prescrita caso seja a preferência da gestante.

 

5- As doenças bucais provocam malefícios à saúde da gestante e do bebê? Qual é o risco?

Resposta: SIM! As doenças bucais, em especial às infecções gengivais, provocam perigos para a gestante; recentemente, estudos descobriram que as bactérias periodontopatogênicas disseminam-se rapidamente na circulação sanguínea, provocando a liberação de prostraglandina, hormônio fisiológico que provoca contração uterina, colocando a gestante dessa forma em risco de parto prematuro. Foi averiguado em um determinado estudo que cerca de 70% das gestantes pesquisadas que tiveram pré-eclâmpsia (hipertensão após 20 semanas de gestação com perda de proteína na urina – proteinúria) possuíam infecções periodontais, tornando assim, a saúde bucal e a necessidade de visitar um dentista durante a gestação, extremamente importantes.

 

6- A gestante pode fazer tratamento de canal?

Resposta: SIM, a gestante pode fazer, pois, partindo do princípio que o tratamento de canal envolve uma lesão de cárie avançada e muitas vezes sintomatologia dolorosa, a gestante precisa ter a sua saúde sanada, pois a situação atual é de sofrimento.

 

7- E se tiver que fazer radiografias, é perigoso para o bebê?

Resposta: NÃO, hoje em dia já foi constatado que as tomadas radiográficas no consultório odontológico possuem uma quantidade de radiação extremamente baixa, e a aplicação da mesma usando proteção com avental de chumbo e protetor de tireóide, não trará nenhum tipo de prejuízo na mãe e bebê em nenhum período da gestação.

 

8- E a prevenção com flúor, precisa fazer? É verdade que a gestante precisa usar flúor para prevenir cáries nos dentes do seu bebê? 

Resposta: NÃO, não é necessário fazer nenhum tipo de prevenção com flúor visando a saúde bucal do bebê, pois sabe-se que a ação primordial dele é TÓPICA, ou seja, é com o contato direto do flúor nos dentes, portanto não traz nenhum tipo de benefício. A gestante pode fazer aplicações tópicas no consultório caso o dentista julgue necessário visando a sua própria saúde.

Bom, acredito que as perguntas principais sobre o atendimento de gestantes são essas. A literatura que utilizei para elaborar esse post foi o livro Tratamento Odontológico para Gestantes, que eu adoro!

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Caso tenham ainda alguma dúvida, é só deixar a sua pergunta no nosso espaço de comentários. Beijos!